É preciso dizer não

 

Em lares brasileiros, a liberdade em excesso abalou a autoridade dos pais. Culpa também da educação liberal que eles receberam em casa.

O psicólogo americano Laurence Steinberg costuma dizer que as crianças devem ser apresentadas ao conceito de limites desde muito cedo, para que se tornem indivíduos bem adaptados ao mundo adulto. Hoje, no Brasil, talvez mais do que nos Estados Unidos e nos países mais ricos da Europa, existe a percepção de que os pais se tornaram tão permissivos que não conseguem pronunciar um “não”. As raízes para isso foram investigadas pela educadora Tânia Zagury, que passou os últimos cinco anos colhendo depoimentos de centenas de famílias brasileiras.  Ela resume a sua tese central: “Os pais têm dificuldade em impor limites às crianças porque eles próprios vieram de lares em que a liberdade em excesso aboliu a noção de hierarquia. Estão perdidos em relação ao mais básico”.  

Como impor limites
A educadora Tânia Zagury reuniu as situações cotidianas em que os adultos mais têm dificuldade em demarcar o espaço das crianças e fazer valer a sua autoridade. As dicas que ela dá estão amparadas na sua experiência e na vasta literatura existente sobre o assunto.

A CRIANÇA SE RECUSA A COMER ALIMENTOS SAUDÁVEIS
È comum que a hora das refeições se transforme em momento de barganha, com os pais tentando convencer os filhos alimentar-se bem em troca de promessas. A tática deve ser outra: fingir não dar atenção à manha e, caso a criança se recuse mesmo a comer, retirar o prato. Com fome, é ela que cederá depois, desenvolvendo gosto por alguns dos alimentos que rejeitava.

UMA BIRRA INTERMINÁVEL
Vale aqui a máxima de que os filhos aprendem muito mais observando o comportamento dos pais do que os escutando. Portanto, não reaja a um chilique com outro chilique. Sinais de descontrole por parte dos pais farão à criança sentir-se com poder e confiante. Com a voz em tom normal, mas firme, mostre a ela que não conseguirá o que deseja desse jeito. E deixe-a recobrar a calma por si mesma.

A HORA DE DORMIR
O princípio é de sedimentar o hábito de ir para a cama em horário razoável, o que exige determinação por parte dos pais. Para tal, vale estabelecer um pequeno ritual que precede o sono – como contar histórias à criança.

QUANDO A CRIANÇA NÃO QUER ESTUDAR
Antes de tudo, ela deve entender que o estudo é uma obrigação dela e que tem um valor. O melhor incentivo para isso vem do próprio exemplo que a criança tem em casa. Pesquisas mostram que, quanto mais a leitura é valorizada por uma família, mais os filhos cultivarão esse hábito. Se a lição de casa for feita com displicência, peça que seja refeita, para enfatizar a idéia do esforço – corrigi-la será tarefa do professor.

O MOMENTO DE DESCONECTAR
Não faz sentido esperar que uma geração da era digital fique longe da internet. Mas é vital que se estabeleça um período de tempo para a navegação na rede. As horas em frente ao computador não podem ultrapassar aquelas dedicadas às demais tarefas. Também não dá para deixar a criança sem orientações básicas sobre o que é apropriado ou arriscado para ela na web. O ideal é que o computador fique em espaço comum da casa, sob o olhar dos adultos.