Matrícula na Hora Certa

 
A preocupação exagerada dos pais com o futuro dos filhos pode transformar a rotina de muitas crianças em uma roda-viva: da escola para a natação, de lá para a aula de violão, que quase se emenda com a de espanhol e, de volta em casa, à criança ainda tem de estudar para a prova de matemática no dia seguinte. Na medida certa, atividades extracurriculares só trazem benefícios. O problema está no estímulo precoce, que acontece quando a atividade não corresponde às capacidades físicas e intelectuais da criança e, claro, na exigência excessiva, que converte em compromisso o que deveria ser recreação. O resultado não poderia ser outro: o stress. “Nessa fase, ele é ainda mais prejudicial à saúde. O stress na infância pode reduzir a capacidade de conexão entre os neurônios, afetando o desenvolvimento neurológico da criança”, explica o pediatra Saul Cypel, da Sociedade Brasileira de Pediatria.  A revista Veja consultou cinco especialistas para descobrir a idade ideal para começar diferentes atividades e quais os riscos associados à prática precoce.

DANÇA
IDADE IDEAL: a partir de 5 anos
POR QUÊ: a criança começa a ter maior consciência corporal e noções de postura e equilíbrio. Além dos benefícios para o corpo associados a essa atividade física, como aperfeiçoamento da coordenação motora, aumento da flexibilidade e prevenção à obesidade, a dança ajuda a desenvolver a sociabilidade das jovens bailarinas – e bailarinos, por que não?

MUSCULAÇÃO
IDADE IDEAL: a partir de 14 anos (meninas) e 16 anos (meninos).

POR QUÊ: “exercitar-se com cargas pesadas na infância aumenta o risco de lesões articulares, musculares e ósseas”, explica a pediatra Ana Lúcia de Sá Pinto, do Ambulatório de Medicina Esportiva do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Na adolescência – a diferença de idade entre meninas e meninos se dá pelo desenvolvimento físico mais precoce nas garotas -, os exercícios de força, com cargas moderadas, devem ter como objetivo o fortalecimento muscular. E, claro, sob a supervisão de um profissional. Apenas na fase adulta, quando não há mais crescimento de ossos e músculos, os treinos com sobrecarga, que resultam em hipertrofia muscular, estão liberados.

ESPORTES RECREATIVOS
IDADE IDEAL: a partir de 3 anos.

POR QUÊ: antes dessa idade, o cérebro infantil ainda em desenvolvimento, não está apto a coordenar certos movimentos – além, é claro, da dificuldade de manter a atenção na mesma tarefa por muito tempo. Segundo os médicos, a natação é uma ótima atividade para crianças entre 3 e 5 anos. “Além de trazer segurança para os pais, já que o filho aprende a se virar na água, ela estimula o desenvolvimento muscular e cardiorrespiratório da criança”, diz o ortopedista pediátrico Cláudio Santili, professor da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Há também clubes e escolas de esportes que oferecem atividades recreativas para a criançada. Nessas aulas, que misturam exercícios com natação, ginástica e futebol, os esportistas mirins entram em contato com diferentes modalidades por meio de brincadeiras, sem compromissos com regras e competições.

ESPORTES COMPETITIVOS
IDADE IDEAL: a partir de 7 anos.

POR QUÊ: em geral, é nessa fase que a criança passa a ter maturidade para entender as regras de cada esporte e lidar com a frustração da derrota. Até os 10 anos, porém, é desaconselhável restringir os treinos a uma única modalidade esportiva. “A variedade estimula o desenvolvimento de diferentes grupos musculares e habilidades motoras”, explica a pediatra paulista Ana Lúcia Pinto. Além disso, o treinamento especializado, cujo objetivo é melhorar a performance do atleta, pode provocar fadiga mental e, consequentemente, prejudicar o rendimento escolar. Para os médicos, a dedicação a um único esporte, com treinos exaustivos e stress de competições, deve ser evitada até a adolescência.

INSTRUMENTOS MUSICAIS
IDADE IDEAL: a partir de 6 anos.

POR QUÊ: tocar instrumentos de brinquedo antes dessa idade desperta e desenvolve o gosto musical dos pequenos, mas essa relação com a música deve ser lúdica. O estudo sistemático só é recomendado a partir de 6 anos, quando as áreas cerebrais responsáveis pela precisão motora estão mais desenvolvidas. “Pais tendem a acreditar que, quanto antes aprende a tocar um instrumento, mais talentoso é o filho. Isso é um equívoco, pois o ritmo de aprendizagem da criança deve ser respeitado”, diz a pedagoga Maria Lúcia Cruz Suzigan, especialista no ensino de música para crianças.  Segundo ela, com raras exceções, nessa faixa etária ainda não se tem maturidade para escolher um instrumento.
Por isso, a pedagoga recomenda a introdução com aulas de flauta e, em seguida de piano. “A flauta é simples de aprender e o piano por ser mais completo, forma a base musical para o aprendizado posterior de outros instrumentos”, explica.

IDIOMAS
IDADE IDEAL: a partir de 4 anos
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POR QUÊ: nessa fase o cérebro passa por um processo de desenvolvimento acelerado, o que consolida mais rapidamente o aprendizado de novos idiomas. Tanto que, na infância, podem-se aprender duas línguas paralelamente, sem a dificuldade que um adulto teria. Além disso, como o idioma nativo ainda não está totalmente fixado no cérebro, por assim dizer, as crianças com menos de 5 anos são mais flexíveis para assimilar novos fonemas sem sotaque.
“A exposição precoce a outras línguas deve ser feita por meio  de atividades sensoriais. Ou seja, em vez de associar sons a símbolos, a criança aprende falando e ouvindo”, explica o neuropediatra Mauro Muszkat, da Universidade Federal de São Paulo.

FONTE: REVISTA VEJA – EDIÇÃO 2236 – ANO 44 – Nº 39 – 28/09/2011.